• Com criminoso não se negocia”. A frase é de Ricardo Balestreri, ex-secretário nacional de Segurança Pública e referência nesta área de atuação em todo o país. Balestreri, que é defensor da modalidade de polícia comunitária e atento às causas humanitárias, afirma que o Governo do Estado faz certo em não recuar frente à ação dos criminosos que vêm realizando ataques no Rio Grande do Norte desde a sexta-feira da semana passada.
Os mais de 60 atentados em pelo menos vinte cidades do estado causaram muito pânico na população e provocado grande mobilização do aparato estatal de segurança. “O que está acontecendo no Rio Grande do Norte é uma barbaridade do ponto de vista de intimidação”, exclama.
“Neste momento de grave crise, precisamos cerrar fileiras, transplantando a questão partidária e apoiar o governador nessa ação que congrega todas as forças estaduais e federais no combate ao crime. Não devemos neste momento politizar esses episódios”, reforça o especialista.
Ricardo Balestreri ressalta que os ataques são uma resposta a uma atitude “correta” do Executivo, que é a instalação de bloqueadores de sinal telefônico nos estabelecimentos prisionais do RN. “Se nós encararmos o crime como uma indústria, imoral e ilegal, enfim, nós temos que ver que essa indústria está tendo um prejuízo grande, e por isso está reagindo. Então essa política foi correta”, enfatiza.
A instalação desses equipamentos é uma ação do Governo do Estado para coibir o uso de aparelhos telefônicos dentro das unidades penais, visando a evitar que apenados controlem atividades ilícitas do lado de fora dos muros das penitenciárias.
No entanto, apesar do discurso de auxílio ao Governo, Balestreri alerta que o apoio no atual momento de “crise” impeça de pensar e pleitear ações de longo prazo para a efetivação da Segurança Pública. “Se não fizermos isso, vamos revolver a crise agora, porque se sufoca uma crise na força, mas ela estourará em outro momento e, possivelmente, mais forte que agora, porque os bandidos vão se aperfeiçoar”, argumenta.
Ricardo Balestreri defende que é preciso humilhar publicamente os criminosos, para demonstrar que o Estado é mais forte. “Mas isso é um gesto momentâneo, é tópico, um remédio que a gente põe em cima da ferida. A gente ainda não tomou um remédio ainda para curar o organismo. Esse organismo vai criar novas chagas, que vão aparecer daqui a pouco”, comenta.
Balestreri destaca que o Sindicato do Crime do RN (SDC), grupo criminoso ao qual se atribui os atos de vandalismo, é organizado e age com estratégia. “A ação no Morro do Careca tem forte caráter de marketing estratégico. Quem mora no apartamento de R$ 6 milhões e no barraco sentiu da mesma forma a simbologia: ‘os bandidos tomaram conta”, acrescenta.
“O que causa pasma na gente é nos darmos conta que o RN não conseguiu estruturar uma rede de inteligência informativa suficiente para fazer a predição. Estamos o tempo inteiro correndo atrás do prejuízo”, critica. Balestreri afirma que seria necessário que houvesse redes informativas que avisassem o Estado dos atos antes de eles acontecerem. “A proximidade com a comunidade é fundamental para isso, a polícia de proximidade. Estamos há três dias atrapalhados com as ações dos bandidos”.
Balestreri acredita no modelo de polícia comunitária se expanda para todo o estado. “Deu certo onde foi empregado esse modelo. Não tem erro”, atesta.O professor também argumenta que é necessário que, assim como os criminosos, o Estado atue de maneira estratégica, planejando ações de longo prazo, se antecipando aos fatos e não de maneira tática, “apenas respondendo” aos ataques. “Enquanto o Estado se move como um paquiderme, o crime se move com a agilidade de um tigre, porque não está submetido a qualquer burocracia ou política”.
Na prática, um exemplo de atuação da Máquina Estatal proposto por Balestreri é o controle da entrada de armas no RN. Ele afirma que, pelo que se percebe nas filmagens recentemente divulgadas, os integrantes do SDC não dispõem de armas longas, e é preciso impedir a entrada desse armamento de grosso calibre para evitar o fortalecimento do poder de fogo.
Ampliar a rede de inteligência para desfazer as cadeias de comando do SDC também é sugestão do especialista. “Tem que estudar os processos de infiltração, de aproximação da comunidade pra obter informação natural que vem da comunidade. Não tem como desbaratar sem conhecimento profundo de como elas funcionam”.
“Falar em ‘falta de mão dura’, falta de dar ‘porrada’ não resolve. Esse discurso é para a população ignorante, o termo ignorante do sistema,  e funciona demagogicamente. As pessoas pensam que varrer o lixo para debaixo do tapete vai resolver. Não resolve nada. O Rio passou 40 anos fazendo isso e não resolveu. O que resolve as coisas em Segurança Pública são políticas cientificas, políticas racionais de Segurança”.
Fonte: http://novojornal.jor.br/